Friday, February 9, 2007

a escolha do leão

rebecca hoje amanheceu inspirada e derramou sobre mim suas teses conclusivas sobre um "leão" que há algum tempo ela estuda. pelo que me parece, ela tem feito o que é bem próprio dela fazer: observar e quase não falar. ela é do tipo que dá corda, dá corda, até ver até onde vão pedir mais. ontem, ela achou que a quantidade de corda que ela deu já tinha sido mais que suficiente e chegou a conclusão que o tal do bichano vive em cativeiro - apesar dele querer mostrar-se bicho solto.

situação comum essa. achar que é uma coisa, ou que se está numa posição que você não está. verdade que nem todo mundo é leão... mas acho que isso faz com que o fato de ser um leão e estar enjaulado com toda a força que um leão tem, o torna de certa forma mais frágil do que um mico leão, por exemplo. precisa-se de muito mais força e inteligência pra se capturar um leão do que um outro bichinho qualquer. mas rebecca, após meu comentário, continuou dizendo que não foi ninguém que aprisionou o leão, foi ele mesmo quem veio pra jaula. "por quê?" - tive que perguntar - ela prosseguiu - "porque ele assim escolheu".

engraçado como algumas pessoas se anulam de tal forma a se esconder atrás da assistência que prestam aos outros. acho isso uma temeridade, e por isso tive que concordar com rebecca, quando ela afirma que deixar-se enjaular para ser admirado é literalmente aprisionar o seu eu. eu já conheci algumas figurinhas que precisavam ser aceitas pelo grupo e por isso eram só sorrisos, agrados, e um senso de humor que excedia o normal, mas que quando estavam sozinhas, se sentiam pequenos seres solitários (estou falando de pessoas que passaram na minha vida e que acabaram ficando pra trás). tentei mostrar-lhes isso, mas não tenho certeza que optaram por si mesmos... de qualquer forma, hoje, conheci mais uma dessas pessoas - e rebecca tb - e digo que é triste ver que procura-se estar presente na vida dos outros, mas não permite que os outros estejam de verdade na sua. como pode ser que uma pessoa queira contato com as outras pela obrigação de se fazer presente, mas não necessariamente pelo prazer de ter essas pessoas junto a si? fala do peso da obrigação que lhe foi imposta, e não tem senso de prazer nisso. talvez nem ele veja as barras de ferro da sua jaula. se aproximou tanto delas para estar mais presente dos outros que não consegue enxergar que existe uma barra entre seus olhos, separando-o completamente dos outros. dá, mas não recebe. e talvez até tenha desaprendido a receber. pode ser que algumas pessoas até tentem dar-lhe algo, mas tenham medo diante de tanta imponência. o leão ruge e é ouvido, mas quem consegue falar mais alto no momento do seu rugido para que ele o escute? quem consegue mostrar-se mais forte para que ele se renda? quem consegue mostrar pra ele que o relacionar-se pode ser diferente? e continuo a me perguntar, quem é que consegue ver as barras de ferro da prisão na frente dos olhos do leão? ilusão da maioria que vê através das barras e só enxerga o leão, e o acha forte o suficiente pra ser o rei da selva. pobre leão. isolado está só. mas parece refirmar que a cada dia quer mesmo estar só.

esses dias alguém me falou que leões são animais extremamente dóceis, quando domesticados. eu acredito. mas até conseguir chegar perto de um e ele se deixar ser carinhado deve levar um bocado de tempo [e coragem!]. me pergunto o quanto ele gosta de estar nessa posição mantendo essa distância. a distância de um leão pode significar segurança para ambos os lados. nem todo mundo conseguiria ter um bicho desse no sofá da sala, e por outro lado, o leão pode se tornar um gatinho. o que quer que aconteça, ele será sempre um leão. é a sua natureza. sei que o relógio que existe entre mim e o leão está correndo, e pode ser que um dia consiga ser domesticado, mas o que entendo é que atitudes bruscas podem causar reações indesejadas e o melhor mesmo é deixar que o "rei" ir se acostumando com o meu cheiro e com a minha presença. eu acho. talvez, depois que os ponteiros do relógio girarem muitas vezes, eu possa chegar mais perto da jaula e mostrar que a porta está aberta. sempre esteve e que ele pode sair. mas, sabe, talvez ele não queira... porque afinal de contas, a escolha é dele.



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