não tem jeito não. se você está no brasil e se dá ao estressante trabalho de assistir a qualquer telejornal, você vai ver que parece mesmo modismo só falar de violência. mas não todos os tipos de violência. as mais cotadas são as movidas a armas de fogo e a violência contra a moral do cidadão. "só". hoje, por exemplo, foi noticiado que 40 bilhões de reais são desviados por ano dos cofres públicos para obras superfaturadas. essa quantia é maior que a destinada ao ministério da saúde. dinheiro tem e a prova tá aí. [o que eu nunca entendi, assim como polly, é porque o dinheiro roubado nunca reaparece - vai ver que os bancos suíços ficam no triângulo das bermudas].
de qualquer forma, me pergunto de que adianta gastar cerca de uma hora e meia ou duas do meu dia assistindo a mesma coisa. me sinto como naquele filme que todo dia é o mesmo dia, o dia da marmota. todos os dias acontecem as mesmas coisas. acordamos e vamos pra rua ver que nada mudou. as armas de fogo continuam nas mãos dos bandidos e da polícia, e de ambas as mãos saem as balas que matam e ferem quem infelizmente não tem nada a ver com essa guerra desenfreada. [perdão. percebo que me apressei em dizer que nada mudou. uma coisa sim mudou e muda constantemente]. a ousadia e a crueldade de quem subjulga a população já tão sofrida a uma situação de caos urbano é crescente. a polícia, enfraquecida, muitas vezes não consegue fazer seu dever de casa e acaba tirando notas baixas diante do mau elemento e diante do povo. mas o bandido é esforçado, e cuida de fazer direitinho todas as suas tarefas [também, ai dele se não fizer]. ele sim, deve ter prazer de gastar uma hora e meia ou duas do seu dia assistindo ao "telecurso segundo grau" da bandidagem, também chamado de telejornal, pra saber o que os outros, que podem ser a concorrência ou mestres, estão fazendo por aí. diferentemente de um profissional que paga muito dinheiro pra anualmente ou bianualmente ir a um congresso pra se atualizar, o bandido tem acesso a esse aprenizado todos os dias e de graça através da televisão.
é moda. bandido gosta de estar na moda. se aparece o arrastão em copacabana no horário nobre lá na globo, no dia seguinte, estão fazendo o mesmo na praia de santos ou na praia do futuro em fortaleza. mas se a onda muda e a tendência da moda mostrada na tv é a de levar a vítima no caixa rápido pra fazer um saque, então é melhor que seja bem feito. basta pular de canal pra canal e ver como os "estilistas" estão fazendo de forma ousada e de vanguarda. por outro lado, nós que assistimos ainda perplexos tanta ousadia não nos damos conta que é tudo igual o tempo todo. estamos entregues e, como se não bastasse, nos deixamos ser bombardeados com essas notícias horrendas todos os dias. a coisa ficou tão banal que hoje tive dificuldade de entender como uma emissora coloca após seu telejornal um programa chamado rota 190. pra mim os dois programas eram um só programa. a essência era a mesma. não tem diferença não.
diante de um quadro tão triste e desanimador, a única certeza que tenho é que estou aqui escrevendo esse texto e que você está aí lendo. não somos as vítimas do dia das balas perdidas, porém somos sim, vítimas de roubos a cada segundo. 17% do que pagamos em impostos é desviado todos os meses. os cartuchos das balas podem não ter atingido a nossa carne hoje, mas certamente que outros já acertaram a nossa alma brasileira. e cada vez que nos prestamos a ouvir mais uma vez a mesma coisa através do telejornal somos atingidos novamente e a bala perfura, penetra e corta nosso orgulho.
o meu orgulho.
temporária é a satisfação em assistir tais programas como saber que hoje zuleido veras ficou envergonhado no aeroporto por causa dos comentários dos transeuntes ao seu redor. o coitado ficou tão constrangido que foi se refugiar no banheiro. engraçado por segundos, mas não encobre os danos causados por ele ao nosso país, a nós, há anos.
esse texto, longo texto, foi um desabafo pesado e talvez até bastante pessimista, mas que precisava sair. eu já fiz a minha opção. leio o jornal, revistas, mas mantenho-me o mais longe possível dos telejornais. pouco me acrescentam. sinceramente. em tempos em que nem filme de ação ou suspense eu quero ver mais, pra não ver tiroteio, violência ou sangue, prefiro ficar sentada no sofá com polly comendo pipoca e fazendo outras coisas. prefiro ainda guardar o pouco que ainda resta da inocência ingênua e utópica que me acompanha desde criança e poupar meus olhos e ouvidos de cenas que em nada me edificam, mas que pelo contrário, só me fazem endurecer e entristecer.
quero fugir da rotina sanguinolenta e corrupta dos telejornais. fugir pra outro lugar. "ache um lugar feliz, ache um lugar feliz". pois é. apesar desse lugar estar cada vez mais difícil de ser encontrado, porque hoje lugar feliz também significa lugar seguro, prefiro continuar vivendo essas duas horas fazendo coisas que me tragam alegria, como conversar com os meus ou fazer carinho no gato. porque o resto, esse resto todo que mostram lá, literalmente, eu já estou cansaça de saber.
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