jogos panamericanos. tragédia aérea. corrupção.
entre alegrias e tristeza passamos mais uma semana. vimos a superação de muitos atletas que escreveram seus nomes na história esportiva do nosso país. paralelamente a essa alegria que tivemos junto a eles nessa semana, nós, do brasil todo, continuamos assistindo passivamente como espectadores muitos outros tipos de superação. diferentemente dos atletas que brilharam e tiveram em seus peitos o reconhecimento máximo do evento ocorrido, soubemos de homens e mulheres que também davam o melhor de si, superando-se também eu creio, mas apagados em um profundo anonimato. esses são os bombeiros e legistas que têm trabalhado exaustivamente na tragégia com o airbus 320 da tam.
diferentemente do brilho dos holofotes e flashs, muito merecidos, esses homens e mulheres são meros desconhecidos para nós e assim permanecerão para sempre na nossa história. não somos um povo que honra devidamente os heróis de verdade. penso como shakespeare que um dia afirmou que heróis de verdade são pessoas comuns mas que fazem o que tem que ser feito. esses homens e mulheres não ganharão medalhas. esses homens e mulheres não serão perseguidos pelos repórteres da globo como celebridades. eles simplesmente estão fazendo o que precisa ser feito, porém diferentemente dos atletas, sem nosso devido reconhecimento.
diferentemente do sonho da conquista panamericana, muito merecida, esses homens e mulheres devem estar vivendo um pesadelo. devem estar tendo pesadelos. não quero soar pessimista ou sombria, mas ser parte de um acontecimento tão sofrido e amargo certamente não era o sonho de nenhum deles, posso praticamente garantir.
enquanto que alguns nunca serão sequer conhecidos para serem lembrados, outros já sabem que cair no nosso esquecimento é uma questão de tempo. o brasileiro é mestre em esquecer.
assim como os heróis que nunca adquirem notoriamente uma identidade para o nosso povo, também somos bons em nos esquecermos da classe oposta. esquecemos dos nomes e da ficha dos bandidos, dos corruptos, e voltamos a colocá-los em posição de destaque. isso é uma vergonha. eu tenho vergonha. a nossa, a minha, memória política é péssima e prova disso são os não raros retornos de políticos como o sr. fernando collor de melo. agora estou em dúvida se isso é falta de memória ou se começa a ser falta de vergonha na cara do nosso povo.
deveríamos nos lembrar mais de nomes. deveríamos nos lembrar mais de datas. deveríamos nos lembrar mais dos fatos.
deveríamos ter os grandes memoriais dos judeus, ou dos americanos, que celebram ano após ano fatos que marcaram suas histórias para que nos esforçácemos pra não esquecer o que de importante passou.
mas talvez nem isso adiante. não nos empolgamos com o nosso 7 de setembro. mesmo com o feriado e as paradas. esquecemos de lembrar do motivo das nossas datas festivas. não lembramos do nome dos que por essa pátria deram a vida, ou que se esvairam de si por nossas causas. eu não me lembro deles. talvez nunca tenha me interessado em saber de verdade. nunca procurei saber quem foram meus colegas de profissão que lutaram por liberdade de expressão durante a ditadura militar. não sei o nome do químico/cientista que viabilizou o etanol pra nós. não sei de cor o nome pelo menos cinco políticos que lutaram pelas diretas já. não sei o nome do policial que conseguiu colocar o fernandinho beira-mar atrás das grades e talvez pergunte isso a muitos policiais e eles também não saibam a resposta. no entanto, enquanto ainda está na mídia, hoje sei que renan calheiros está envolvido em escândalos, mas talvez amanhã me esquecerei disso. hoje lembro que acm, que morreu como herói para muitos, esteve envolvido em falcatruas no painel do senado, mas talvez isso cairá numa malha suave na minha memória, na nossa memória com o tempo.
pra mim a verdade é que somos levados pelo assunto do momento e o que passou, passou. infelizmente não vamos atrás dos nossos heróis nem corremos atrás da verdade e da nossa lembrança límpida. somos uma nação sem grandes heróis contemporâneos, porque não sabemos quem eles são. somos uma nação com grandes corruptos que reelegem-se em eleições futuras. somos uma nação sem grandes celebrações. somos uma nação sem grandes manifestações efetivas. não temos voz pra elogiar, um nome pra aclamar, porque não o sabemos. não temos voz pra protestar porque nos acostumamos a ser assim. e assim vamos, construindo a nossa história e em seguida apagando da memória os fatos que tomamos conhecimento. não exaltamos nossos heróis de verdade e passamos a mão na cabeça de bandidos enternados. gostaria que nossa realidade fosse diferente. gostaria que minha realidade fosse diferente.
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