enquanto passava o dia na companhia dos mestres, a pequena recebe o inesperado recado para um encontro que há muito esperava. a princípio, ela não quis ir. estava incerta de como se portaria e a indecisão do momento certo, que antes não existia, desapareceu. no entanto, sabia que era hora para que o encontro acontecesso. apesar das palavras não ditas, os desencontros haviam sido muitos e eram justamente eles que causariam a reunião.
o gigante atrasou-se um pouco, como ela esperava. ela não conseguira ensaiar um bom começo para o diálogo (aliás, ela desejava de todo o coração que fosse um diálogo). pensou, pensou, construiu e desconstruiu. quando a porta abriu, viu um gigante um pouco mais envelhecido e definitivamente mais magro. abatido, ele entrou em sua casa e ela logo lhe ofereceu um prato de comida e uma bebida. ele aceitou de bom agraddo.
o açúcar na bebida parece não levantado o ânimo do homem, que há pouco sentia-se tão seguro. sua voz encheu todo o ambiente. mas não era mais uma voz potente de um gigante eloquente. era a voz mansa de um abatido. enquanto ele falava, os ponteiros do relógio corriam impacientes. deram várias voltas é a pedido do gigante desengonçado, sua voz foi ouvida. suas palavras foram as de alguém que sabe quando calar e fazer do momento um momento pra simplesmente ouvir. ele prosseguiu. por mais um bom tempo, ele prosseguiu. ela sabia que num mundo ideal, homens, principalmente gigantes, raramente falam e por isso entendia que aquele era um momento único.
após o expurgo de sua alma, o gigante calou-se diante do seu próprio silêncio. emudeceu diante da finitude de suas palavras. ela gentilmente iniciou seu mal ensaiado, porém curto discurso. a boca secou-lhe e as palavras escassamente vinham-lhe à mente. prosseguiu. falou de suas frustrações finalmente. falou do vazio que sente ao perceber o olhar transpassante do gigante diante sua pequenez. falou de sua desconfiança mais antiga. deu-lhe, depois dele, sua perspectiva sobre o encontro que tiveram há algum tempo em que ela o viu desabar machucado. o monólogo virou um diálogo. mesmo diferentes em tantas coisas, foram igualmente transparentes e colocaram medos, frustrações, e os seus fantasmas na mesa.
alívio.
levantaram-se para despedir-se daquela que pareceu ser a primeira de muitas horas de conversa entre eles, mas ao fazê-lo ela reparou em algo pouco notado por eles. a giganteza do gigante não era tão superior assim à pequeneza da pequena. pareciam mais iguais. sim. definitivamente estavam mais iguais. sorriram-se, abraçaram-se e com um beijo do gigante ela o despediu. o reencontro não se dará tão em breve, porém, ela espera que esse tempo seja bom para que seu semelhante firme-se no novo caminho que propôs-se a seguir. a pequena sabe que esse caminho não é só de flores, porém também sabe que é imensuravelmente mais plano que o outro. ela espera o melhor dos dois. não espera sozinha. ela gosta do que vê pela frente e aguarda com esperança os dias alaranjados de outono.
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