há coisa de quase 6 anos percebi que na minha casa tinha uma estante. nunca tinha visto ela antes. comecei a olhar os volumes das coleções de livros, os arranjos, a poeira, as gavetas e notei que tinha muita coisa fora do lugar. o que eu mais gostava tava na última prateleira enquanto o que já poderia ter ido pra doação tava nas prateleiras de baixo. ao invés de tentar ficar remendando a arrumação ruim, resolvi puxar a estante de uma vez só no chão. e não é que ela veio mesmo? machucou um pouco porque algumas coisas caíram em cima de mim. nada que tenha sido muito sério e que eu já não tenha esquecido das dores e dos hematomas. hoje, a maioria não dói nem mais um tico. enfim, acho que só agora depois desse tempo todo é que consigo ver como está ficando a arrumação dessa estante.
como boa designer, sempre guardo uns papéis aí pra servirem de referência pra algum projeto futuro (que nem sei se vai surgir). é a tal da tralha. sempre guardo um pouco e é muito difícil de me livrar dela! além da tralha – que pode ficar jogada por trás dos livros sem ninguém ver – acho maravilhoso que existam as gavetas. as gavetas são grandes baús de memórias. geralmente é lá que fica o que não quero que empoeire muito ou que tem um formato diferente, ou o que não deve ficar tão à vista. tenho muitas gavetas e acho isso perfeito. confesso que tenho as minhas preferidas, que são as de mais fácil acesso. dá pra ir lá abrir, pegar o que tem dentro, olhar, admirar, curtir e depois guardar com mais carinho do que antes. no entanto, a versatilidade das gavetas é o que mais me apaixona. se depois de abri-la e vir o que tem dentro eu quiser mudar as coisas de lugar é muito fácil. pego e rearranjo o que quiser . talvez mais perto, talvez mais longe. depende da situação.
depois das gavetas, parto pros volumes e pros arranjos. lá em cima, o que pode ser visto, mas que raramente acesso, e a ordem assim vai decrescendo até chegar perto dos olhos e do coração. essa arrumação vai levar minha vida inteirinha, eu já sei. e sobe e desce, guarda, joga fora. tô preparada pra isso porque sei que uma hora a gente quer isso e daqui a pouco aquilo outro, não que sejamos inconstantes, mas somos dinâmicos e a vida sempre nos mostra mais de uma saída. mudamos o tempo todo, inclusive de opinião (ainda bem). isso vale pra defender a tal da tralha, coitada. é lindo quando em algum momento qualquer a gente se surpreende com ela porque finalmente foi útil. tudo tem um motivo. da mesma forma são as pessoas, não que pessoas sejam tralhas, mas elas podem ficar guardadas em um canto qualquer do coração ou da memória esperando o momento certo de revelar o porquê ocuparam esse espaço por tanto tempo. e nessa minha estante, as pessoas, como os livros podem estar algumas vezes mais perto de mim e outras mais longe. as pessoas, como os livros, podem demorar meses, anos muitas vezes, pra serem lidas e finalmente entendidas. as pessoas, como os livros, podem nos marcar e velar nosso sono da mesinha de cabeceira e depois, como numa doação, se tornarem guardiãos dos cuidados de outros. o fato de doar não significa, nem nunca significou esquecer-se de. ao contrário, é dizer que algo foi importante pra mim em algum momento, e que eu acredito que pode ser útil pra outras pessoas também.
arrumar essa estante não é nada fácil e é bastante cansativo, pra falar a verdade. em questão de minutos, o que tava lá em cima pode descer – e a escada pode ser o perdão, um e-mail ou um telefonema inesperado. o que tava cá embaixo pode subir, ir pra direita ou pra esquerda ou sair da estante. normal, novos livros surgem e a estante é uma só. haja estrutura pra agüentar tanta coisa! e é por respeitar a capacidade dela que há de reorganizá-la e limpá-la periodicamente. e como há gosto pra tudo nessa vida, nela sempre poderão coexistir os bestsellers e os folhetins mais xumbregas. o critério é meu e ninguém pode meter o nariz, aliás, nem a mão. deixem a minha estante porque dela cuido eu! não deixo empoeirar e tenho procurado deixá-la sempre da forma que mais me agrada, que mais me agrada vê-la quando me sento diante dela para admirá-la. guardo verdadeiros tesouros nela e algumas referências menos vistosas também. mas nunca me esqueço do que tenho lá. não posso e nem tenho como esquecer. aliás, nem quero.
costumo dizer que tudo tem uma lado bom e um lado ruim. não ter uma grande lista de bens me faz ficar ocupada com bens ainda maiores, porque, como diria shakespeare, não importa o que você tem na vida, mas quem você tem na vida. pois é, concordando com cada palavrinha dele é que eu reafirmo que é muito bom parar nessa parte da minha casa e ver o que já consegui juntar ao longo desses 30 anos, ou melhor, muito melhor, quem já consegui ajuntar ao meu redor ao longo desses 30 anos (que logo, logo serão 31 – ui).
agradeço a Deus por cada “volume” da minha estante. sei que alguns são muito raros e outros únicos, mas independente disso, eu sei que se está lá é porque é importante pra mim e por isso estou em boa companhia.
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