lembrando de "hanging up" da madonna, música (finalmente um acento!) do seu último álbum, que depois de muito insistir e telefonar pra uma pessoa ela exclama; "i'm done! i'm hanging up on you" (cansei! tô desligando nossa ligação). essa expressao i'm done em ingles poderia ser entendida de algumas formas em portugues, sob varios aspectos. quero falar de um (e talvez mais divertido) que é sob o ponto de vista culinário. quando o peru tá no forno e entra branco nórdico pra fazer uma sessão de bronzeamento artificial pra sair meio à la "franguinho carioca da zona sul", o seu termômetro salta de uma só vez avisando "i'm done", significando "estou pronto", "estou cozido", "estou lascado porque serei comido e desaparecerei da face da terra". ele chegou no seu ápice pra cumprir seu propósito. passou horas cozinhando, cozinhando em fogo baixo, modificando a estrutura dos seus tecidos de cru para cozido (eu sei que um dia, mesmo que seja um só antes de eu morrer, eu serei vegetariana pra não ter que pensar mais nessas coisas). isso leva tempo. não dá pra chegar no ponto final sem tempo de espera.
é pensando nisso que ontem à noite também tive que falar como meu amigo peru "i'm done". a sensação de estar em banho-maria cozinhando lentamente me embrulha o estômago. sempre embrulhou. acho que ninguém deve ficar esperando pela decisão do outro pra tocar a própria vida (sempre lembrando que para toda regra existe uma exceção - inclusive para esta mesma). e outra, meu amigo peru avisa a hora certa de sair do seu banho de luz para ser apreciado na medida certa onde suas carnes ainda serão tenras e não ressequidas. ele diz "é melhor parar meu cozimento antes que seja tarde para mim e para você". "pra mim" porque tenho um propósito a ser cumprido, um tempo pra eu amadurecer e ser o que preciso ser, e te dou uma chance pra entender meus sinais e apreciar-me como mereço - afinal de contas paguei um preço pra estar na sua companhia, EU MORRI!!!, ele poderia sair por aí gritando) e "pra você" porque cabe ao outro querer prestar atenção e entender o timing, a sincronia e a sintonia acertada dessa relação. se uma das partes falhar, se o termômetro não saltar, ou se o outro se esquecer dele no forno, todo o jantar estará comprometido.
mas existe o outro lado. o peru poderia silenciosamente não anunciar que estava pronto pra sair da fornalha e covardemente continuar lá atééééééé... aceitando o esquecimento e o descaso do outro como normal e permanecendo ao redor dele, pelo simples fato de estar. mas veja bem, (como diria o rui pra vani), a qualidade dessa presença seria a cada minuto menos apreciável e a degradação do pobrezinho não valeria a pena diante de tanta indiferença.
assim como o peru, eu também posso me dar um tempo de cozimento, o qual eu prefiro chamar de chance. fico lá paradinha, vendo até onde a brasa vai esquentar. tudo bem, eu aguento. mas se chega uma hora em que se a única coisa que eu vejo são as pernas passando pra lá e pra cá na frente da minha janela (coitado do peru, se ele ainda tivesse cabeça, seria a visão dele de dentro do forno...), e vejo que o outro só pára uns poucos segundos pra olhar de rabo de olho pra mim pelo vidro, eu apito logo e saio andando com meus pézinhos pra longe dali (privilégio meu ainda ter pés, mas não posso falar o mesmo do peru). faço isso porque já me aconteceu de ficar no forno atééééééé... e quando tirada, nem pra mesa fui, porque tava que nem terra seca do sertão, acho que já tinha é virado farofa. fui descartada. e sem piedade. a verdade é que se a gente não apita pra dizer quando o tempo de cozimento jå deu (o que tinha que dar) é capaz de ficarmos lá até começarmos a cheirar a queimado na vida do outro e aí sim ele se lembrar que existimos.
[ai, que papo down esse... "i'm done" com ele também!]
bem, esse aqui é só um registro de mim pra mim mesma sobre o pé das coisas hoje (acho pouco provável que quem quer que venha a ler esse texto vai entender realmente o que ele quer dizer, mas... c'est la vie). apesar de estar "done", como o peru, diferentemente da madonna, não vou desconectar-me do outro, mas vou simplesmente colocá-lo em outro cômodo da minha casa, ou prateleira da minha estante, ou, vou oferecer-lhe um convite mais básico pra minha festa, porque os convites VIPs já dizem pra que tipo de pessoas se destinam... e como a vida é dinâmica e eu também procuro ser, hoje, sacudo a poeira (e alguns tempeiros) e toco pra Bangu! (essa expressão merecia um destino melhor, né não?). enfim, o dia tá lindo lá fora e a vida mais bonita aqui dentro, porque a vejo me moldando.
e pra terminar de verdade esse post, aqui vai uma frase dos titãs que me reflete no vidro: "só quero saber do que pode dar certo, não tenho tempo a perder".
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